terça-feira, 12 de setembro de 2017

Criando filhos para o mundo

As circunstâncias que envolveram o nascimento de Moisés, no Egito, foram cheias de temores e reviravoltas. Os meninos já nasciam condenados à morte (Êx 1:15-16), seus pais o esconderam o quanto puderam (Hb 11:23) e, quando ele foi colocado no rio e achado pela filha de Faraó, poderia ter morrido, mas a graça de Deus o preservou. Mais do isso, a própria filha do homem que mandou matar os meninos protegeu aquele menino (Ex 2:1-8). Contrariando todas as circunstâncias, a filha de Faraó disse à mãe da criança: “Leva este menino e cria-mo”. Isto foi impressionante! O menino não somente ficaria vivo, como a própria mãe iria cria-lo e ainda receberia um salário para isso.

No meio de todo este quadro impressionante, porém, havia um problema. A filha de Faraó mandou que o menino fosse criado para ela. Todo o investimento de tempo, alimentação orientação, etc., no final das contas não seria para a mãe do menino, mas para a filha de Faraó. O menino seria preparado, na verdade, para ser ingressado num mundo completamente diferente daquele que ele estaria acostumado em casa. Depois que fosse entregue à filha de Faraó, tudo seria diferente.

Além desta questão importante, convém notar que os pais do menino tinham grandes expectativas para ele. Eles haviam entendido que o filho deles poderia ser o futuro libertador da nação, por isso o tinham escondido três meses em casa. Mas quando o menino fosse entregue à filha de faraó, será que ele não esqueceria das expectativas espirituais que tinham nele? Será que não ficaria tão deslumbrado com a suntuosidade do palácio, a facilidade dos pecados cometidos ali e com a sedução das riquezas que esqueceria de todo o propósito espiritual e se entregaria com avidez ao mundo de luxúria e glória que lhe aguardava?

E o tempo também não ajudava em nada. Os pais do menino teriam pouco, bem pouco tempo para lhe ensinar alguma coisa de valor espiritual. Contrastando os muitos anos que Moisés moraria no palácio do Egito com os poucos anos que teria com seus verdadeiros pais, enquanto era criado por eles, quase podemos dizer que não adiantaria investir tempo criando valores espirituais na vida daquele menino. Dos 40 anos que ele ficou no Egito, é bem possível que tenha ficado na casa dos seus pais apenas o tempo da primeira infância, e o resto do tempo viveria no palácio.

Não é difícil perceber que praticamente as mesmas coisas acontecem hoje. Já ouvi algumas vezes as pessoas dizerem que “filhos não se cria para nós, se cria para o mundo”. Até certo ponto, preciso concordar com esta afirmação. Chegará a hora quando os filhos pequenos serão apresentados ao mundo, e eles passarão mais tempo envolvidos com tudo o que o mundo tem para oferecer do que em casa. Eles aprenderão sobre a suntuosidade que há no mundo, as suas glórias, luxúrias, vícios, etc. E isto acontecerá mais rápido do que se pensa. É bem possível que os pais tenham apenas a primeira infância disponível antes que os filhos comecem a conhecer os “novos mundos”.

            Os pais de Moisés, entretanto, deixaram um exemplo muito importante na criação daquele menino. Quando a criança nasceu, eles “não temeram o mandamento do rei” (Hb 11:23). E durante o pouco tempo que tiveram o menino em casa, eles não perderam tempo achando que o menino era novo demais para aprender alguma coisa. Pelo contrário, eles ensinaram valores espirituais ao seu filho. Estes valores o marcaram de tal forma, que quando o menino cresceu, “recusou ser chamado filho da filha de Faraó” (Hb 11:24). Os ensinos recebidos em casa foram tão significativos, que quando o menino, já adulto, teve oportunidade de se envolver em pecados, ele preferiu “ser maltratado com o povo de Deus” (Hb 11:25). O exemplo de seus pais foi tão marcante, que ele não se vislumbrou com os tesouros do Egito, “tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo” (Hb 11:26).


Concordo que criamos filhos para viverem no mundo, mas podemos ensiná-los a não amar este mundo. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Falando bem do inimigo

Como você reagiria se recebesse a notícia de que a pessoa que mais lhe prejudicou na vida acabou de morrer?

Eu sei que responder a esta pergunta não é fácil, principalmente para quem sofreu durante anos nas mãos de pessoas tiranas. Mas enquanto você pensa na reação que teria, repare a atitude de Davi quando esteve nesta mesma situação.  

Durante anos Davi sofreu muito por causa das perseguições injustificáveis dos seus inimigos. Entre aqueles que mais lhe prejudicaram estavam o rei Saul, que foi o primeiro rei de Israel, e Abner, o comandante do exército de Saul. Por causa deles Davi precisou viver numa caverna, dormia em situações precárias, temia pela própria vida e precisou se separar de pessoas que amava. Foram alguns anos de sofrimento, medo e lágrimas.    

Mas chegou, enfim, o dia quando Saul morreu, e Davi recebeu a notícia. Sua reação, porém, não foi de alegria e exultação; foi de tristeza e choro. Ele escreveu um cântico e mandou que fosse registrado e guardado para ser cantado depois (II Sm 1:17-27). Analisando as palavras deste cântico, não vemos nenhuma menção das perseguições, das injustiças e nem mesmo dos muitos defeitos de Saul. Pelo contrário, tudo o que Davi falou sobre ele foi para exaltar a memória daquele que tanto lhe prejudicou.

Outro exemplo impressionante aconteceu na ocasião da morte de Abner. Quando Davi soube da sua morte, ele chorou, ficou sem comer e ainda afirmou: “Hoje caiu em Israel um príncipe e um grande” (II Sm 3:38). Ele ficou muito triste pela morte de alguém que respeitava, apesar de ter sido seu inimigo por tantos anos.

Confesso que não é fácil agir assim, mas este é o exemplo que devemos seguir. Entristecer-se pela morte de quem nos prejudicou é a melhor forma de se reproduzir as qualidades do Deus a quem servimos. Deus também não Se alegra quando morre alguém que não O amava (Ez 18:23; 33:11).

Além disso, precisamos tomar cuidado com as palavras que usamos para nos referir a quem nos prejudicou e já partiu. Albert McShane escreveu: “Esta ‘Lamentação’ contém lições que são difíceis de aprender ... Nenhum homem natural teria, nem poderia ter, escrito este hino fúnebre; somente alguém que aprendera na ‘escola de Deus’. Homens espirituais são um enigma para o mundo; na verdade, o mundo não os pode compreender. Além disto, aprendemos quanta coisa boa pode ser dita a respeito de um homem como Saul, sem mentir. O homem natural lembraria das coisas ruins que ele sabia acerca do falecido, mas aqui aprendemos que se formos falar qualquer coisa a respeito dos falecidos, deve ser sempre o melhor possível ... Alguns de nós sabemos de falhas na vida de grandes servos de Deus que agora estão com o Senhor, mas nunca devemos falar disto à geração que não os conheceu”.         

 Quando alguém nos prejudica em alguma coisa, é próprio da natureza de todos nós usar palavras pesadas para falar a respeito destas pessoas. Nos desculpamos dizendo que estamos apenas sendo sinceros sobre o que pensamos sobre os outros quando, na verdade, temos um desejo velado de solapar o caráter daqueles com quem não concordamos. Isto não é certo e não devemos incentivar ninguém a agir assim.

Mesmo aqueles que mais nos prejudicaram neste mundo tiveram alguma coisa de valor, e são estas coisas que valem a pena lembrar.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Orações impedidas

Todos nós sabemos que há muita felicidade no casamento quando os casais são unidos e trabalham juntos para o bem mútuo. Onde não há desentendimentos os cônjuges enfrentam com mais resistência as vicissitudes da vida, atravessam com mais vigor as intemperes da semana, resolvem com mais inteligência as dificuldades do dia e desfazem com mais rapidez os embaraços de cada hora. Na vida destes casais os ventos chegam como um tufão, mas logo vão embora como pequenos sopros.   

Além da união que desfrutam entre si, os casais que servem a Deus têm um recurso ainda mais garantido – as orações. Eles sabem que podem contar com o Senhor e para o Senhor sobre tudo o que passam. Sabem que Deus “ao aflito livra da sua aflição, e na opressão Se revela aos seus ouvidos” (Jó 36:15). Problemas virão. Dificuldades baterão à porta. Aflições serão constantes. E quando vierem os filhos a preocupação será quase um membro da família. Mas eles podem, juntos, subir à presença de Deus em oração e apresentar a Ele tudo o que está no coração, sabendo que Ele tem prazer em ouvir, e tem poder para atender, segunda a Sua vontade.

Mas isto pode ser interrompido, infelizmente. Aquela preciosa união que os caracteriza pode ser abalada. A harmoniosa que impera no lar pode virar um caos. O consenso pode se transformar numa guerra de interesses próprios. E quando isto acontece, as orações são as primeiras que sofrem grande baixa. É isto que Pedro diz: “Para que não sejam impedidas as vossas orações” (I Pe 3:7). Esta frase não significa que as orações não serão atendidas; significa que as orações não serão feitas. Ou seja, por alguma razão os casais podem simplesmente parar de orar. É isto que quer dizer “impedidas as vossas orações”. Como diz a Versão Atualizada: “para que não se interrompam as vossas orações”.

Diante desta possibilidade alarmante de um casal parar de orar, precisamos imediatamente saber as razões que levariam a isso, e o contexto nos ajuda. No contexto deste versículo (I Pe 3:1-7), o assunto gira em torno do relacionamento entre marido e esposa no lar. Nos versículos 1-6 as responsabilidades recaem sobre a esposa, e no versículo 7 recaem sobre o marido. Olhando com mais atenção para o versículo 7, parece que é a forma como o marido trata a esposa que contribui para este fracasso nas orações do casal. É verdade que as emoções da esposa dão os tons do lar, mas é o tratamento do marido que lhe empresta as cores.

Quando o marido não se preocupa em ter entendimento sobre a esposa, quando não a honra, quando não a trata como trataria um vaso mais fraco, isto pode acarretar na esposa um desânimo na hora de orarem juntos, o que impedirá que exerçam este privilégio. Mas não devemos esquecer que os versículos anteriores falam da esposa. Se ela não obedece aos princípios apresentados nos versículos 1-6, dificilmente conseguirá “ganhar o seu marido”. Isto, claro, não deve ser visto como desculpa. O marido jamais deve ser rude porque a esposa não se sujeita, e a esposa jamais deve ser insubmissa porque o marido é insensível. Ambos devem se comportar de tal forma que, ao contrário de impedir, incentive o outro a orar também.

Portanto, sugiro ore. Ore até que ouça ao seu lado a voz do seu cônjuge dizendo “Amém”!